quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

À ESQUERDA DAQUELA ÁRVORE



Jardim Botânico da Faculdade de Ciências, Lisboa, Portugal


À ESQUERDA DAQUELA ÁRVORE
Victor Jerónimo
Lisboa/Portugal 

Não sei se alguma vez isto se passou com vocês

no Jardim Botânico, que é um parque muito calmo
onde se pode sentir sempre próximo uma árvore,
mas tem sempre que cumprir-se uma cláusula...
...que a cidade fique tranquilamente, longe.

O segredo é apoiar-se digamos, num tronco

e ouvir através do ar, que admite ruídos mortos
como se Reis e cavaleiros galopassem entre as trevas.

Não sei se alguma vez isto se passou com vocês

mas no Jardim Botânico, sempre existiu
uma agradável propensão para os sonhos,
porque os insectos sobem pelas pernas,
porque a melancolia desce pelos braços,
até que uma palmada nossa os afaste.

Depois disto tudo o segredo é olhar para cima

e ver como as nuvens lutam entre as copas
e ver como os ninhos lutam pelos pássaros.

Não sei se alguma vez isto se passou com vocês

mas há casais que buscam o Botânico
eles descem de um táxi, ou saem das nuvens
falam normalmente de temas importantes
e olham-se fanaticamente nos olhos
como se o amor fosse um pequeno túnel
para se contemplarem dentro desse amor.

Olhem, por exemplo, para a esquerda daquela arvore

falam e, as suas palavras, param
comovidas a olharem-se e, a mim...
nem sequer seus ecos chegam.

Não sei se alguma vez isto se passou com vocês

porém, é lindo imaginar o que dizem
sobretudo se ele morde um ramo,
ou se ela deixa um sapato entre as pedras,
sobretudo se ele tem uns olhos tristes
ou se ela quer sorrir, porém não pode.

Para mim o rapaz está a dizer

o que se diz muitas vezes no Jardim Botânico

Olha, chegou o Outono

O sol de Outono
E sinto-me feliz
Que linda que tu estás
Sinto-me feliz
Quero-te
No meu sonho
Da noite
Onde escuto as conchas,
O vento no mar
E sabes?
Aqui também há silencio
Olha para mim
Quero-te,
Eu trabalho muito
Faço números
Fichas,
Discuto com cretinos,
Distraio-me e zango-me
Dá-me a tua mão
Agora
Sabes?
Quero-te muito
Penso ás vezes em Deus
Não tantas vezes,
como gostaria
não gosto de roubar
o seu tempo
mais a mais está longe
agora tu,
estás ao meu lado
e, agora mesmo estou triste
estou triste e quero-te
já passaram muitas horas
na rua está um rio
as arvores ajudam
os céus
e que sorte a minha
quero-te
há muito era menino
há muito o que importa
o azar era muito
como entrar em teus olhos
deixa-me entrar
quero-te
deixa-me entrar
quero-te
menos mal, mas quero-te

Não sei se alguma vez isto se passou com vocês

mas pode acontecer de repente e sem aviso,
Porque na realidade trata-se de algo desolador
desses amores de fortuna e azar
que Deus não admite nos seus céus

Reparem que ele acusa-a com ternura

e ela esta contra a cortesia,
Reparem que ele vai falando de recordações
e ela fica consternada misteriosamente.

Para mim ela está a dizer

o que se diz muitas vezes no Jardim Botânico,

Repara no que falaste

Nosso amor
Foi sempre uma criança morta
Mas há pouco, parecia
Que ía viver
E que, venceríamos
Porém nós dois fomos tão fortes
Que o deixamos sem seu sangue
Sem o seu futuro
Sem o seu céu
Uma criança morta
Só isso
Maravilhoso e condenado
Nunca terá um sorriso
Como a tua
Doce onda
Nunca terá uma alma triste
Como a minha alma
Pouca coisa
Nunca aprenderá com o tempo
A usar o mundo
Porém as crianças que assim vivem
Mortos sem amor e
Mortos de medo
Têm um coração tão grande
Que se destroem sem o saber
Tu disseste-o
Nosso amor
Foi desde sempre uma criança morta
E que verdade dura e, sem sombra
Que verdade fácil e, que pena
Eu imaginava que era uma criança
E afinal era, uma criança morta
Agora pára
Pára
Mede a tua fé e recorda
O que podíamos ter sido
Para ele
E que não pôde ser nosso
E mais
Quando chegar Abril
Vê onde estas
Que eu levarei flores
E tu comigo

Não sei se alguma vez isto se passou com vocês

porém o Jardim Botânico é um parque sonolento
que só desperta com a chuva.

Agora a ultima nuvem parou

e molha-nos como se fossemos alegres mendigos.

O segredo está em correr com precaução

para não matar nenhum escaravelho
e não pisar os fungos que aproveitam a chuva
que nascem desesperadamente.

Sem prevenir dou a volta e sigo,

Áqueles que à esquerda da árvore
eternos e escondidos da chuva,
Falando quem sabe, que silêncios.

Não sei se alguma vez isto se passou com vocês

mas quando a chuva cai sobre o Botânico
aqui só param os fantasmas...

Vocês...

podem ir-se.
Eu... fico aqui!...

Escrito em Outubro de 1988 no Jardim Botânico de Lisboa 


Terra Latina, Antologia Poética Internacional (2005) ISBN 85-905170-3-9


Menção Honrosa, Prémio Litera-Cidade 2013-Poesia, com publicação no livro Cantos Seletos, da Editora Litera-Cidade, Belém/Pa, Brasil ISBN 975-85-64488-37-3



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Trajectória de um vadio

Desde criança, estive ligado aos livros, primeiro através do meu tio, grande leitor de romancistas portugueses e não só, depois dediquei-me à pintura mas sem êxito, embora tivesse algumas qualidades não tinha paciência, mas sempre esfumava alguma coisa, principalmente em reuniões.
Como lia muito, cerca dos meus 12 anos comecei a rabiscar em pedaços de papel, por vezes papel de embrulho que mais tarde transformava em soberbas bolinhas e com elas fazia pontaria no que calhava.
Cerca dos meus 14 anos escrevia sobre cenas do quotidiano e muita ficção cientifica, começando então a guardar o que escrevia, guardava religiosamente e não mostrava a ninguém, alias eu escrevia em segredo, geralmente nos bancos dos jardins, onde metia uma folha dentro de um livro e assim escrevia.
Aos 20 anos conheci o Armando da Costa Santos, grande trovador, com a alcunha do "Armando maluco", porque entre muitos dos seus feitos estava o facto de ele escrever poesia. Ele escrevia compulsivamente, muitas vezes interrompendo o que estava a fazer para acrescentar um verso ao papel que tinha sempre ao lado ou até no bolso das calças. Foi com ele que eu comecei a interessar-me por poesia e foi nessa época que eu comecei a ler grandes poetas portugueses. Fernando Pessoa era dos que mais me inspirava até porque muitas das suas obras começaram a ser publicadas na empresa onde eu trabalhava, INCM.
Em frente à INCM existe um dos mais famosos Jardins Botânicos da Europa e era para lá que eu ia a maioria das vezes escrever, onde realmente me sentia bem e inspirado.
Pensei por essa época final dos anos 80 começar a mostrar o que escrevi e má época escolhi. Fui apelidado de vadio, porque poeta nesse tempo e não só, era um vadio, também podia ser maluco, ou com tanta coisa para fazer e a perder tempo com merdas, ou então, vai mas é cavar batatas, enfim, realmente convenci-me que nem para mim merecia guardar tanto papel, cerca de duas resmas principalmente em papel A4 foram por mim destruídas num famoso dia de raiva e frustração.
Quis o destino que no principio da década de 2000 encontrasse numa Bíblia, que nunca mais tinha lido, o celebre poema À ESQUERDA DAQUELA ÀRVORE. Talvez fosse o destino, talvez fosse mensagem espiritual, talvez...
Hoje guardo religiosamente esse poema como testemunho de uma época passada.
Mas nunca mais voltei a ser o mesmo!...
Victor Jerónimo
09.Jan.2014

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